sábado, 28 de maio de 2011

O Encanto dos Felinos

Por Carlos Alberto fernandes da Silva

Encanto é algo difícil
De explicar e descrever,
Muito embora seja fácil
Contemplar e perceber,
Quem na vida nunca achou
Algo bonito de ver?

Há paisagens que encantam
E tem música imortal,
Os textos inesquecíveis
E muito sonho real,
Há pessoas que, no mundo,
Não existe outra igual.

À beleza feminina
Todos dão aprovação,
Vinícius e Tom Jobim,
Cantados ao violão,
Agradam, sem muito esforço,
O mais duro coração.

Existe encanto nas flores
E no perfume das rosas,
Também no ouro e na prata,
E nas pedras preciosas,
Num dia claro de sol
E até em tardes chuvosas.

A um sorriso de criança,
Quem consegue resistir?
Com o carinho dos avós,
Quem consegue competir?
Um belo conto de fadas,
Quem não gosta de ouvir?

São inúmeros exemplos
Que mostram todo encanto
Que existe em nossa vida,
Espalhado em cada canto,
Maravilhar-se com algo,
Já não nos causa espanto.

Os animais nos encantam
E ficam em nossa lembrança,
Guardamos suas imagens,
Desde o tempo de criança,
E mantemos este encanto
Mesmo quando a idade avança.

Quem nunca amou um bichinho
E lamentou sua partida,
Mesmo sabendo quão breve
Seria a sua vida,
E carrega uma saudade
Que não será esquecida?

Eu mesmo lembro de vários,
Desde minha tenra idade,
O meu primeiro cachorro,
Que recordo, com saudade,
De seu jeito brincalhão,
Um amigo de verdade.

Cada um faz sua escolha
E tem o seu preferido,
Há quem admire pássaros
Com seu cantar e gemido,
Os peixinhos no aquário,
Quadro belo e divertido.

Os cachorros foram eleitos
Do homem, o grande amigo,
São companheiros e ajudam
Na guarda contra o perigo,
Ninguém melhor que um cão
Merece o nosso abrigo.

Mas em toda a natureza
Não existe nada igual
Ao fascínio de um gato,
O mais belo animal,
Quem teve um já conhece
Sua atração fatal.

Pouca coisa se compara
A gatos inda filhotes,
Dormindo ou mesmo brincando,
Cedo mostrando seus dotes
De guerreiros caçadores,
Espreitando e dando botes.

A ternura que expressam
Quando estão ronronando,
Com o seu olhar carente
De quem está suplicando,
Nos enganam e esquecemos
Quem é que está comandando.

Na maioria das vezes,
Este grande sedutor,
Que finge submissão
Pra conquistar nosso amor,
Ao contrário de outros bichos,
É um grande ditador.

Pois é ele quem escolhe
O momento de brincar,
Quando não quer, não adianta,
O melhor é esperar,
É ele quem dita as regras,
Temos que nos sujeitar.

Pois esses dominadores,
Donos de rara beleza,
Fascinam desde o passado,
Com sua delicadeza
E seu porte elegante,
Marca de sua realeza.

Dizem, foram os egípcios
Que domesticaram os gatos,
Por causa dos roedores,
Como, entre outros, os ratos,
Quando habitavam a África,
Vivendo dentro dos matos.

No Egito, seu fascínio
Levou-os à divindade,
A luz dos olhos, no escuro,
Era uma realidade,
E os antigos selvagens
Reinaram ali de verdade.

Com os fenícios e os romanos,
Espalham-se na terra,
No mundo que conquistaram
Com sua máquina de guerra,
Os gatos tomam as cidades,
Deixando a selva e a serra.

E com o passar dos anos,
Com a diversificação,
Surgiram várias espécies
Deste primo do leão,
Que acompanhava o homem
Em cada reino e nação.

Na Europa adoentada,
Eles foram salvadores,
Contra os ratos que assolavam,
Disseminando os horrores
Das pestes que atacavam,
Trazendo mortes e dores.

Embora deuses no Egito,
Na Idade Média, a queda,
Pois foram associados
Ao demônio que não arreda,
Gato preto e bruxaria,
Um azar que só azeda.

Ainda hoje há resquício
Contra o gato de cor,
Há quem não cruze com ele,
Pra não se encher de pavor,
O deus virou o demônio,
O bom tornou-se o terror.

Mas, superstição à parte,
Falta unanimidade
A respeito desse bicho,
Até na atualidade:
É um animal confiável
Ou cheio de falsidade?

Pois, ao contrário daqueles
Cheios de dedicação,
Há quem muito se amedronte
E tenha hesitação,
Recusando recebê-los
Como de estimação.
Mas tudo isso é fruto
De lenda e de preconceito,
E muita gente, quem sabe,
Por não conhecer direito,
Chega até a ter pavor
Do felino e do seu jeito.

Dizem que o gato é
Perigoso e traiçoeiro
Que não tem amor ao dono,
É dorminhoco e arteiro,
Não serve pra companhia
Não passa de um interesseiro.

Que deixa a casa fedendo
Porque não gosta de banho,
Que fere, morde e arranha
Quando encontra um estranho,
A ignorância de alguns
Chega a ser deste tamanho.

Mas quem já criou um gato,
Sabe que não é assim,
Pois são dóceis e amigos
Embora exista o ruim
Até na raça humana,
Desde o tempo de Caim.

Eles são independentes,
Não aceitam imposição,
Mas demonstram seu carinho
E a sua afeição,
Muitas vezes, esfregando
A cabeça em nossa mão.

Gostam de ficar no colo
De deitar perto da gente,
De correr e de brincar,
E só um gato doente,
Fica apático e estranho
E um pouco indiferente.

Como todo animal,
Necessitam de cuidados,
De vacinas e alimentos,
Para eles, destinados,
Comparados aos demais,
Eles são mais asseados.

Pesquisas já comprovaram
Que em casa que tem gato
Existem menos enfartos
(Eis aqui um grande fato),
Pois transmitem calma e paz
Com o seu jeito cordato.

Isto sem contar também
Com o prazer e alegria
Que compartilham com o dono
Em cada hora do dia,
Quando existe interação,
Amizade e harmonia.

Quem observa um gato
Descobre os seus segredos:
Gostam dos lugares altos,
Pois ainda guardam os medos
Quando nas matas viviam
A salvo nos arvoredos.

Adoram viver em bando
E lutam por liderança,
Reconhecem o mais forte,
E conservam esta herança,
Quando encontram espaço,
Reinam como uma criança.

São curiosos e atentos
Entram em caixas e gavetas,
Fuçam a casa inteira,
Uns verdadeiros xeretas,
Num momento, são uns anjos,
Mas noutro, são uns capetas.

Na verdade, são treinados
Para a luta e para a caça;
Para pegarem as presas,
Fingem e fazem trapaça;
Quando brincam com a ninhada,
Enchem o mundo de graça.

Dormem dois terços do dia,
São exímios predadores,
Sua energia é guardada
Pois, como bons caçadores,
Usam a velocidade
Durante os seus labores.

Não gostam de lugar sujo,
Adoram água corrente,
Mudam o lugar de dormir,
Sabem interagir com gente,
Abrem portas e gavetas:
Uma raça inteligente.

São nervosos, ciumentos
Não escondem a emoção,
Ronronam se estão contentes,
Com dor, ou com pretensão
De disfarçar os seus erros
Ou ganhar nossa atenção.

Entre eles, miam pouco;
Com gente, são barulhentos,
Como se falar quisessem,
Pra expressar seus intentos,
Nem sempre comem de tudo,
Às vezes, são uns nojentos.

Por isso, lendas à parte,
Não é um deus nem capeta,
Não é uma fera terrível
Vinda de outro planeta,
Nem um santinhos com asa,
Que segue a etiqueta.

Muitos gatos eu já tive
E cada um diferente:
O primeiro, o Gatinho,
Não desgrudava da gente,
Seguia por onde eu fosse,
Manso amável e carente.

Quando se afiava uma faca,
Chegava como um avião,
Saboreava pão doce,
Caçava como um leão,
Trouxe até cobra pra casa,
Ficou no meu coração.

Tive um branco que era surdo
E foi curta a sua vida,
Não deixou muitas histórias,
Foi triste a sua partida,
Essa curta convivência
Deixou uma grande ferida.

Depois criei um rajado
Que cresceu como um gigante,
Tinha um focinho enorme
Calmo, fino e elegante,
Mas não dividiu espaço
Com a sua acompanhante.

Principalmente depois
Que nasceu sua ninhada,
Os filhotes da Lelinha,
Uma gata abandonada,
Que recolhemos pra ser
Sua companheira amada.

É claro que existiu
Uma grande traição,
Os filhotes eram pretos,
Do seu rival, Ricardão,
O inimigo briguento
Que habitava a região.

Entre os filhotes, a Fofa,
Que uma amiga recolheu,
Viveu quase vinte anos,
Já bem velhinha, morreu,
Deixando muitas saudades
No lugar onde viveu.

Porque era companheira,
Não desgrudava da dona,
Se esta saia de perto,
Virava uma chorona,
Não abandonava o colo,
Com outros, era durona.

Depois criei o Nenen,
Também grande e rajado,
Era um dos mais bonitos,
E por todos muito amado,
Saia todas as noites,
Por que nunca foi castrado.

Uma noite, não voltou,
Deixando muita tristeza,
Não sei se o temporal,
Ou ato de malvadeza,
Ceifou aquele bichano,
Dono de rara beleza.

Depois dele, veio o Mickey,
Que parecia um rato,
Um siamês bem novinho,
Patinho feio, de fato,
Que, ao crescer, se tornou
Belo, charmoso, um gato.

Era super carinhoso,
Ronronava em alto som,
Admirado por todos,
Peludo, grande e bom,
Mas se visse outro macho,
A música mudava o tom.

Brigava com qualquer um
Que surgisse em sua frente,
Vivia todo arranhado,
Machucado e doente,
Foi até dado por morto,
Era um gato resistente.

Em casa todos sabiam
Que ele não tinha futuro,
Vivia pelos telhados,
Escalava qualquer muro,
Até que um dia cessou
Essa vida de apuro.

Depois do Mickey pensamos
Em não ter outro animal,
Pois, quando partem, a tristeza
Causa a todos grande mal,
Mas uma casa sem gatos
Para nós não é normal.

Alguém nos trouxe uma gata
Que escapou de chacina,
Seus irmãos foram afogados
Num rio ou numa piscina,
Entre todos que criei
Sem dúvidas, a mais fina.

Calma, mansa, educada,
Não incomoda ninguém,
Quieta, amável e tranqüila,
E siamesa também,
A casa estava em paz
Mas havia um porém...

Ela brincava demais
E nos faltava energia,
E uma equivocada idéia
Ocorreu-me certo dia:
Ela estava precisando
De uma boa companhia.

E veio um candidato,
Um gatinho siamês,
Presente da amiga Marta,
Ainda não tinha um mês,
Ágil esperto, inteligente,
Valia por mais de três.

Botei o nome de Duque,
Esperando uma mudança
Naquele seu jeito inquieto,
Próprio de uma criança,
Mas o tempo foi passando
E perdi a esperança.

O que esse gato faz,
Acho que até Deus duvida,
Ele veio transtornar
Toda paz de nossa vida,
Tentar mudar esse bicho
Tem sido causa perdida.

Ao mesmo tempo que é
Amável e brincalhão,
Fica nervoso e adora
Jogar os copos no chão,
E gosta de desligar
Fios da televisão.

Seu desejo é ir pra rua,
Embora seja castrado,
Abre armário e joga fora
O que estiver guardado,
Não existe nenhum vidro
Que já não tenha quebrado.

Preferimos não contar
As coisas que ele faz,
Pois tem quem ache impossível
Um gato ser tão capaz,
Mesmo assim todos da casa
Adoram este rapaz.

Eu conheço sua irmã,
Bela, elegante e normal,
É arteira, nos limites,
Um cativante animal,
Embora irmã do Duque,
A Teby não é igual.

Ela encanta a família
Com seu charme e beleza,
Dotada de belos traços
E muita delicadeza,
Só com a companheira, Kessy,
Ela mostra malvadeza.

Gostaria de falar
Dos gatos do mundo inteiro
Hoje, dezenas de raças,
Desse felino ligeiro,
Brincalhão e divertido,
Grande amigo e companheiro.

Alguns, quase não têm raça:
(Pelo Curto Brasileiro),
O nosso ex vira lata,
Alegre, dócil, arteiro,
Um gato inteligente,
Divertido e companheiro.

Já o Gato Siamês
(Oriundo de Sião),
Com o focinho, pata e orelha,
Quase da cor do carvão,
Com grandes olhos azuis,
É um gato brincalhão.

Sexualmente, precoce,
Inteligente e amigo,
Porém, quando provocado,
Transforma-se num perigo,
Entre os gatos do Brasil
Talvez seja o mais antigo.

O Persa, que obteve
Preferência mundial,
Oriundo da Turquia,
E da Pérsia Imperial,
Com o seu ar majestoso,
Não existe outro igual.

Robusto, de calda curta,
Hoje, com mais de cem cores,
Pelo longo, grandes olhos,
São fofinhos, uns amores,
Mas requerem mil cuidados,
Da parte dos criadores.

Embora ele requeira
Um cuidado especial,
Com seu belo e longo pelo,
Esse belo animal
Enche o coração e os olhos,
Com seu dote magistral.

O Maine Coon, um gigante,
Nem por isso, perigoso,
É um gato americano,
Com o seu porte garboso,
Um exímio caçador,
Amigo e afetuoso.

Vive bem com as crianças
Convive até com o cão,
Com seus 50 centímetros,
Lembra um tigre e um leão,
Chega a pesar 11 quilos,
De todos, é o campeão.

O Exótico, que cresce
Na preferência do povo,
Lembra um bicho de pelúcia
Ou mesmo um ursinho novo,
Para quem gosta do Persa,
Essa raça é um renovo.

E dá bem menos trabalho
Pra quem vive ocupado,
Sem tempo pra dedicar-se
A um bichano delicado,
Mas não abre mão de estar
Muito bem acompanhado.

Por ter o pelo mais curto
Do que um Persa peludo,
Ele traz toda ternura
Do seu ancestral rabudo,
Brincalhões e carinhosos,
Com seu pelo de veludo.

Dão trabalho e despesas,
Mas mesmo assim vale a pena
A companhia dos gatos,
Se a alma não é pequena,
Uma opção pra quem quer
Ter uma vida serena.

Não importa se ele é gato
De raça ou vira lata,
Se é de grande estatura,
Pequeno ou se é uma gata,
Se durante a noite dorme
Ou se adora serenata.

Se é considerado um deus
Ou é visto em declínio,
Se ele é submisso
Ou se exerce domínio,
Sempre vou admirar,
Não me canso de falar,
Dos gatos e seu fascínio.

Vida Longa à Merenice

Por Carlos Alberto Fernandes da Silva

Nesta tarde, eu me sinto muito honrado
Por falar a respeito do cordel
Com a voz, a caneta e o papel
Vou deixar, com vocês, o meu recado
Embora, no Nordeste, apreciado
Para alguns, ele é invencionice
Mas não levo em conta esta tolice
E bem alto levanto esta bandeira
Pois cordel é poesia brasileira
Vida longa à nossa Merenice

Espero ser, aqui, bem recebido
Todo mestre precisa de atenção
Para expor com toda satisfação
E sair com o seu dever cumprido
Na certeza que foi bem entendido
E sua aula não foi uma chatice
Nem tampouco uma mera quixotice
Queremos descobrir novos caminhos
Colher as flores, apesar de espinhos
Vida longa à nossa Merenice

Estou grato pela oportunidade
De falar desta forma de rimar
Para mim, a poesia popular
Merece toda notariedade
Sair do campo e vir para a cidade
Sem aparência de esquisitice
Que ela nos encante e enfeitice
Atinja e nossa mente e coração
Como faz com o homem do sertão
Vida longa à nossa Merenice

E torço para que eu possa, brevemente
Estar entre vocês mais uma vez
Desculpem esta minha insensatez
Por querer esta alegria novamente
Pedir parece, sempre, criancice
Jogar fora as chances é burrice
Eu continuo à disposição
De quem criou tão boa ocasião
Vida longa à nossa Merenice

A História de José e Eloy

Por Carlos Alberto Fernandes da Silva

Dizem que contar uma história,
É acrescentar um ponto,
Por isso, quem a escuta
Já vai dando um desconto,
Principalmente se ela
Lembra, de fadas, um conto.

A história que apresento
É a expressão da verdade,
A respeito de um sonho
Que virou realidade,
De um amor que nasceu
Numa pequena cidade.

É sobre o jovem Zezinho,
Honesto e trabalhador,
Que, na vida, só queria
Encontrar um grande amor,
E, durante muito tempo,
Guardou, no peito, esta dor.

Morador de numa fazenda,
Disposto e afeiçoado,
Era um jovem vaidoso,
Vivia sempre arrumado,
E, no dorso, de uma mula,
Estava sempre montado.

Tinha uma família boa,
Mas se sentia infeliz,
E queria, a todo custo,
Cortar, do mal, a raiz,
Mas Deus tinha preparado
O que ele sempre quis.

Na simples Siqueira Campos,
No norte do Paraná,
Terra boa, rica e bela,
Uma outra, igual, não há,
Uma flor se destacava
Naquele Jardim de Alá.

Pois, no Sitio Marimbondo,
Havia uma linda garota,
Disposta, trabalhadora,
Do mel, a última gota,
Que um dia, viu Zezinho
Com sua face marota.

Ele pôs o seu olhar
Naquela linda donzela
E foi pensando, depressa:
- Eis, aí, minha costela,
Embora com treze anos,
Era uma moça bela.

Zezinho tinha quatorze,
Bem cedo amadureceu,
Obrigações e trabalho,
Muito novo, conheceu,
E, agora, bateu forte
O coração do Romeu.

Eloy não resistiu
Ao jovem paquerador,
E, embora tão criança,
Derreteu-se de amor,
Cupido lançou a flecha,
Venceu o conquistador.

Zezinho sempre fingia
Visitar a sua tia,
Quando se aproximava,
Eloy se escondia,
Se não estava arrumada,
Do galã, ela fugia.

Ele calçava suas botas
Longas até o joelho,
Passava horas e horas
Diante de seu espelho,
Não vou contar mais detalhes
Pra não deixá-lo vermelho.

Casam-se, após dois anos,
Em dezembro de sessenta,
Para Zezinho, acabava
O período de tormenta,
Nos braços daquele anjo,
Que, de amor, lhe alimenta.

Ele tinha dezessete,
Mas aumentou a idade,
Pois queria, a todo custo,
Casar com aquela beldade,
Que, com dezesseis aninhos,
Já tinha maturidade.

Reverendo João Arantes
Deu a bênção ao casal,
Pediu que Deus os guardasse
Das tentações e do mal,
E que, de ambos, brotasse
Uma herança especial.

Embora fossem bem simples,
Pelos padrões atuais,
Os dois viviam felizes,
Mais do que outros casais,
Além de amor e respeito,
Tinham princípios morais.

Os filhos foram chegando,
Primeiro, veio o Serjão,
Muito impulsivo e danado,
Porém de bom coração,
Dizem que, desde pequeno,
Sempre jogou um bolão.

Depois veio a Soninha
Meiga e cheia de beleza,
Muito ligada aos pais,
Mas carregava uma tristeza:
O seu maninho Serjão,
Gostava de malvadeza.

Aprontava com a menina,
Que ficava a chorar,
Olhos e nariz molhados,
Com Serjão a provocar,
De vez em quando o casal
Precisava engrossar.

Mas não parou por aí,
Foi a vez de Samuel,
A quem foi dado o nome
De um Juiz de Israel,
Homem de coragem e fé,
Firme, sábio e fiel.

Depois disso, veio o Silvio,
Que já nasceu bronzeado,
Um garoto inteligente,
Calmo e muito aplicado,
Mais um presente de Deus,
Neste lar abençoado.

O casal pensou que a prole
Ia parar por aí,
Mas como estavam enganados
O Zezinho e a Eloy,
Deus mandou também a Débora,
A bela flor do caqui.

Aquela menina alegre,
Risonha e magricela
Em breve se tornaria
Uma bonita donzela,
Entre ela e a Soninha
Não sei qual é a mais bela.

Mas Zezinho e Eloy,
Olhando para o futuro,
Mudam-se para São Paulo,
Buscam um lugar seguro,
Para educarem os filhos,
Não querem ficar no muro.

O povo muda seu nome,
Chama-no Zé Paraná,
Embora seja paulista
(Foi crescido para lá),
Mas conheceu o Represa
E mudou-se para cá.

De novo, o destino apronta
Mais uma com o casal,
Que já tinha encerrado
A produção, afinal,
Deus mandou o Eliabe,
Um presente especial.

Ele, que perdera a mãe,
Não ficou abandonado,
Tornou-se o sexto rebento,
Sendo por todos amado,
Cresceu com o dom musical,
Um rapaz abençoado.

A vida aqui, em São Paulo,
No início, foi dureza,
Ele tinha dois empregos,
Não conheceu a moleza,
Mas não perdia o rumo
Nunca lhe faltou firmeza.

Trabalhou de motorista,
Vigilante e açougueiro,
Teve até um barzinho,
Precisava de dinheiro;
Para alimentar a tropa,
Não parava o dia inteiro.

Eloy, além dos filhos,
Sempre abriu o coração
Para ajudar os  amigos
Com muita disposição,
Sua casa, ainda hoje,
Até parece uma pensão.

Mas os filhos vão crescendo,
Lucia casa com Serjão,
Nascem Carol e Luan,
Frutos desta união,
E, da família Morais,
A segunda geração.

Samuel casa com a Dorcas,
Geram Natália e Rebeca,
O Silvio casa com a Rose,
Geram a Raissa, a sapeca,
Logo depois, o Murilo,
Que deixa o seu pai careca.

Depois, é a vez da Débora,
Que se casa com o Tate,
Sujeito cheio de graça,
Com o seu sorriso colgate,
Um baiano bem disposto
Que não foge do combate.

Geram a super Fernanda,
Que vale por mais de cem,
Traquina, alegre, agitada,
Mas todos lhe querem bem,
Pra seguir a tradição,
Deve nascer mais alguém.

A Soninha esperava
O seu Príncipe Encantado,
O pai e os quatro irmãos
Deixavam sempre assustado
Cada um dos pretendentes
Que era visto ao seu lado.

Eis que surge o Jair
E enfrenta aquela tropa,
Entra em Campo como quem
Está disputando a copa,
A Soninha diz que sim,
E o desafio topa.

Ela casa com o Jair
E adota os seus filhos,
Marca de perto o Filipe,
Para não sair dos trilhos,
É bem aceita por Débora,
Não existem empecilhos.

O Pedrinho é o bisneto,
Da novíssima geração,
No momento, o mais recente
Morador do coração
De Zezinho e Eloy,
Maior que um caminhão.

Deus conceda vida longa
A este casal amado,
Que chorou quando plantava,
Mas que viu o resultado,
E, hoje, colhe os frutos
De um lar abençoado.

Completam cinqüenta anos
De amor e união;
Pelas bênçãos recebidas,
Declaram, de coração:
- O Senhor é a nossa força
E a nossa salvação.

As Bem Aventuranças - Mateus 5:1-12

Por Carlos Alberto Fernandes da Silva

Jesus, o Mestre dos mestres,
Presente em nossas lembranças,
Que atraiu para si
Velhos, jovens e crianças,
Marcou os seus, ao falar,
Sobre as Bem Aventuranças.

Seu ensino trouxe ao homem
A luz de um novo horizonte,
Principalmente o discurso
Que fez, sentado no Monte,
Trazendo, ao mundo, as correntes
De águas puras da fonte.

Ao contrário do decálogo,
Fundado em proibições,
Sob ameaças de raios,
Tremor de terra e trovões,
Seu ensino destacava
A fé expressa em ações.

No decálogo, há o não;
No seu sermão, há o sim;
A Lei punia os faltosos
Com um castigo ruim,
Mas sua graça e verdade
Serviam a outro fim.

Este importante ensino
É dirigido ao cristão,
Aquele que recebeu,
Na alma, transformação,
Porque a fé verdadeira
Muda nosso coração.

Não basta o não fazer:
Não deve haver o intento;
Por isso, o pecado existe,
Primeiro, no pensamento;
O mau desejo, na alma,
Já quebra o mandamento.

Ser um bem aventurado
É ser mais do que feliz,
Um prazer interior,
Está em nossa raiz,
Extrapola as circunstâncias,
Ouça o que o Mestre diz:

- Felizes são os humildes,
Porque são donos dos céus;
Verdade ignorada,
Oculta por muitos véus,
Contrária aos prepotentes,
Que causam mil escarcéus.

Pois os humildes e pobres
Sempre foram esquecidos,
O texto mostra, entretanto,
Que, por Deus, são preferidos,
Eles são mais que felizes,
Pois pertencem aos remidos.

- Felizes são os que choram,
Porque serão consolados;
Parece até que os papéis,
Nesta frase, estão trocados;
Os que choram e semeiam,
No fim, são abençoados.

Nem sempre o riso é alegria
Nem todo choro é tristeza,
O profeta Jeremias
Chorava com a certeza
Da libertação futura
Daquela vil correnteza.

- E felizes são os mansos
Porque herdarão a terra;
Embora o ser humano
Recorra sempre à guerra,
Mais forte é a mansidão
Que esta frase encerra.

Mansidão não é fraqueza,
Tampouco, passividade,
Moisés, o homem mais manso,
Mostrou-nos esta verdade,
Conduzindo, com coragem,
Seu povo, à liberdade.

- Feliz quem busca a justiça,
Porque será saciado;
Quem tem, n’alma, esta sede,
Por Deus, será contemplado,
No julgamento final,
Vai ser mais um premiado.

Por isso, os nossos atos
Devem expressar justiça,
Coerência e honestidade,
Sem avareza ou cobiça,
Evitando a tentação
Que, nossa alma, atiça.

- Quem possui misericórdia,
A compaixão colherá;
Feliz quem age assim,
Abençoado será,
Amor e misericórdia,
De Deus, sempre obterá.

Deus mesmo julga com amor
O misericordioso,
Mas é sem misericórdia
Para com o orgulhoso,
Quem não tem a compaixão
Nunca foi religioso.

- E felizes são os puros,
Pois eles verão a Deus;
Promessa que não contempla
Discípulos de fariseus:
Na teoria, têm fé,
No proceder, são ateus.

A santidade da alma
Abre os olhos da fé,
Para contemplar os feitos
De Jesus de Nazaré,
E perceber os cuidados
E o poder de Javé.


- E os pacificadores,
Pois, filhos de Deus, serão;
São felizes, pois têm paz
Divina no coração,
Ao contrário do maldoso,
Que só causa confusão.

Jesus Cristo, nossa paz,
Veio reconciliar,
Unindo Deus e o homem
Que o quiser aceitar,
Seu sacrifício na cruz
Veio, esta paz, selar.

- Felizes os perseguidos,
Pois, os céus, receberão;
Quem sofre injustamente
Merece o galardão;
Quem sofre por Jesus Cristo
Faz jus à premiação.

Segundo as Escrituras
É grande o privilégio,
De sofrer, injustamente
(Sem cometer sacrilégio),
Calúnias e acusações
Assim como sortilégio.

- Alegrai-vos e exultai,
Grande é o vosso galardão;
Esta última promessa
É uma confirmação
Do prêmio que Cristo tem
Pro verdadeiro cristão.

Pois quem deseja viver
Com fé e com piedade,
Vai sofrer perseguição
(Jesus disse esta verdade),
Desde o passado, é assim
Que faz a sociedade.

- Assim sofreram profetas
Que viveram no passado;
Quem, no presente, repete
O belo exemplo deixado,
Com certeza, vai sentir-se
Muito bem acompanhado.


Pois vai viver o padrão
Dos profetas do Senhor,
Que viveram, nesse mundo,
Semeando fé e amor,
Mas sofreram a injustiça
E padeceram a dor.

A falsa felicidade
É centrada no pecado,
Gera dor e frustração,
Deixa o homem angustiado,
Não passa de ilusão,
Cristo deixou avisado.




Porque este mundo passa
Levando tudo consigo,
Quem deseja estar com Deus,
Como um verdadeiro amigo,
Não deve amar o pecado,
Que traz a dor e o castigo.

Felicidade é Jesus
 E ter sua salvação;
  Livre da condenação,
   Irradiar sua luz;
    Carregar a sua cruz,
     Inda que aliviado;
      Deixar de amar o pecado,
       Andando em fé e verdade,
        Desejar a santidade
         E pelo Pai ser amado.