Em casa que mulher manda,
Até galo canta fino,
Já dizia um velho adágio
Do folclore nordestino,
Entretanto, ela mandar,
Não é surpresa, é destino.
Pois, quando Deus pôs, no mundo,
O primeiro homem, Adão,
Este vivia sozinho,
Descuidado e peladão,
Bem barbudo e desleixado,
Um verdadeiro machão.
Sua casa era uma beleza,
Sem móveis, desarrumada
(Não havia uma mulher
Trabalhando de empregada),
Depois do expediente,
Ele não fazia nada.
Embora não existisse
O jornal e o joguinho,
Nem sequer televisão
Para ele ver, sozinho,
Havia a necessidade
De tirar um cochilinho.
Dormia a qualquer hora,
Sem ouvir reclamação,
Vivia com a macacada,
Com as onças e o leão,
Era o rei do paraíso,
Não havia oposição.
Nesse tempo ele não tinha
Uma hora de chegar
Do serviço, no Jardim
Que vivia a cuidar,
Na companhia dos bichos,
Nem via a hora passar.
Às vezes, chegava cedo,
Em outra, chegava tarde,
Isso não era problema
E ninguém fazia alarde,
Era um cabra corajoso,
Não nasceu pra ser covarde.
Não havia hora de almoço,
De café ou de jantar,
Para dormir, só bastava
O sol, no céu, se apagar
E quando o galo cantava,
Era hora de acordar.
Sem pressa e nem correria,
Vida calma e sossegada,
Sem problemas no futuro,
Nem preocupação com nada,
Livre como um passarinho,
Sua vida era uma barbada.
Ele comia na sala,
No quarto, sala e galpão,
E deixava a louça suja
Espalhada pelo chão,
Não forrava a sua cama,
Nem limpava o fogão.
Levava sempre pra casa
Os animais do Jardim,
Sua mesa estava cheia
De gato e de guaxinim,
Leões entravam e saiam,
A festa não tinha fim.
Entrava com os pés sujos,
De sapato, ia dormir,
E não escovava os dentes
Nem na hora de sair,
Mostrava dente amarelo,
Quando estava a sorrir.
Espalhava os apetrechos
No que ele chamava lar,
O lixo em frente de casa
Continuava a jogar,
E o melhor: não havia
Ninguém para reclamar.
Apesar desse sossego
E viver num mar de rosa,
Faltava uma companheira
Dedicada e amorosa,
Para dividir a vida
E tirar aquela prosa.
Mas o homem adormeceu
Sonhando com a companheira,
Que Deus, de sua costela,
Fez real e verdadeira,
Era tudo o que faltava
Pra acabar com a brincadeira.
E eis que surge a mulher
Um ser belo e delicado,
Meigo e muito carinhoso,
E, além de tudo, educado,
A paz do velho machão
Tava com o prazo contado.
Pois, após sua criação,
A mulher ocupa o espaço,
E o homem, que vivia
Tranquilo e sem embaraço,
Já não manda mais em nada,
Nem sequer no seu pedaço.
Ele passa a usar roupa
E a andar perfumado,
Não pode mais ter chulé
Tem que viver penteado,
Tomar banho todo dia,
Viver sempre barbeado.
Inventou desodorante,
Para passar no sovaco,
E espantar, para longe,
A catinga de macaco,
Para carregar pacotes,
Já não podia ser fraco.
Em casa, tem novas regras,
Nada de bicho por perto,
Tudo na perfeita ordem,
Lugar e momento certo,
A vida de paraíso
Ia virando um deserto.
Arrotar é proibido,
Gases, nem imaginar,
Falar alto agora é feio,
Sapato tem que guardar,
Tem que aprender bons modos
E a se organizar.
Chegar em casa mais cedo
Torna-se obrigação,
Adeus joguinho com os bichos
Ou outra recreação,
Trabalhar o dia inteiro
É a vida de Adão.
E como se não bastasse,
Foi expulso do paraíso
Por causa da companheira,
Que, de surpresa e sem aviso,
Recebeu, e que o deixou
Bem louco, leso e liso.
Ele teve que encontrar
Tempo para ir à feira,
Fazer compras no mercado,
Visitar a costureira,
Passar no cabeleireiro,
Junto com a companheira.
Tinha que ouvir o relato
E as novidades do dia,
Quando chegava cansado,
Nem sentar ele podia,
- Leve o lixo e traga lenha,
Era o que ele ouvia.
- Está faltando comida,
A dispensa está vazia,
Você não ajuda em nada,
Ela sempre repetia,
Disfarçando a cara feia,
Ele sempre atendia.
Tinha que sair com ela,
Pra passear, é verdade,
E foi num passeio desses
Que ela viu uma novidade,
E o fruto proibido
Despertou curiosidade.
Não que a mulher mandasse,
Ela apenas lhe pedia,
E se ele não atendesse,
Era aquela baixaria,
Com lágrimas e chantagem,
Tudo, ela conseguia.
Pois mulher inteligente,
Nunca precisou mandar,
Mesmo o maior machão,
Faz o que ela imaginar,
E ainda fica pensando
Que é o rei do lugar.
Basta o olhar de uma mulher
Para machão falar fino,
Não importa se é gaúcho,
Se é paulista ou nordestino,
Elas sempre dominaram,
Do mais santo ao mais cretino.
Quem manda é mesmo a mulher,
Isso é fato consumado,
Tem o homem consciente
E também o enganado:
Machão, na frente dos outros
E, em casa, pau mandado.
Mas existe e mulher burra
Que tenta mandar no grito,
Essa enfrenta oposição,
Resistência e atrito,
Porque mandar desse jeito
Não é certo e nem bonito.
Por isso, eu não concordo
Com esse antigo ditado,
Ele não diz a verdade,
Está mais que equivocado,
Desde que a mulher surgiu,
É ela quem tem mandado.
Se galo cantasse fino
Em casa que mulher manda,
Dava pra formar coral,
Acompanhado por banda,
De sopranos de opereta,
Cantando em cada varanda.
É claro que ainda existem
Meia dúzia de machões,
Bancando os reis do pedaço,
Invencíveis e durões,
Sujos e desarrumados,
Estão fora dos padrões.
São criaturas que vivem
No período das cavernas,
Não viram raiar o dia,
Presos a trevas eternas,
Que resistem ao avanço
Da luz das eras modernas.
Dizem que - manda quem pode,
Quem tem juízo, obedece,
Com as pessoas normais
É o que sempre acontece,
Eu tento ser diferente,
Essa é a minha prece.
Como bom paraibano,
E convicto machista,
Dessa turminha mandada,
Não faço parte da lista,
Não ligo quando me chamam
De atrasado e egoísta.
Em casa, sou em quem manda,
Acredite se quiser,
Não importa o que aconteça,
E haja mesmo o que houver,
Mas a última palavra
Quem dá é minha mulher.