Por Carlos Alberto Fernandes da Silva
Genocídio é uma palavra
De nossa modernidade,
Desde que os vis nazistas,
Agindo com crueldade,
Praticaram este crime,
Afrontando a humanidade.
Pois mataram seis milhões
De judeus em sua terra,
E nas áreas conquistadas,
Durante a Segunda Guerra,
Levantaram uma questão
Que, tão cedo, não se encerra.
E, na bela Nuremberg,
No famoso julgamento,
O Crime de Genocídio,
Abominável e sangrento,
Foi criado, não havia,
Até aquele momento.
Para sentir o problema,
Vamos voltar na história,
Quando matar e pilhar
Era visto como glória;
Para os vencidos, a lei
Era uma meta ilusória.
No período das cruzadas,
No Reino da Inglaterra,
Quem ocupava o trono
Era um tal de João Sem Terra,
No lugar do Rei Ricardo
Que comandava a guerra.
Como andava praticando
Abuso de autoridade,
Agindo com injustiça,
Sem respeito e com maldade,
Foi criado um princípio
Em prol da legalidade.
Só existiria um crime
Com uma lei anterior,
Se uma lei não existisse,
Com clareza, em seu teor,
Não se podia tratar,
Ninguém, como malfeitor.
Por isso, há quem rejeite
O tribunal que julgou,
Os crimes que o nazismo,
Contra tantos, praticou,
Porque, aquele princípio,
Na certa, desrespeitou.
Sucumbir com a derrota,
Era o alto preço pago:
Gregos destruíram Troia
E os romanos, Cartago;
Os hebreus, os cananitas;
Sempre houve muito estrago.
Portugueses e espanhóis
Quase extinguem habitantes
Da América ocupada
Pelos bravos navegantes,
No Norte, Centro e Sul,
Os crimes foram gritantes.
Foi preciso que o Frei
Bartolomeu de Las Casas,
Protestasse contra aquelas
Milhares de covas rasas,
E os monarcas cortassem,
Dos criminosos, as asas.
Pai dos Direitos Humanos,
E, dos índios, defensor,
Homem de rara coragem,
Cheio de fé e fervor,
Deixou importante escrito,
Obra de grande valor.
Foi por isso que surgiram
As leis internacionais,
Para que atrocidades
Não se tornassem banais,
E as guerras respeitassem
Os nossos padrões morais.
Mas, na história recente,
Tentam exterminar os curdos,
Países do mundo inteiro
Fingem-se cegos e surdos,
Armênios e palestinos
Sofrem estes absurdos.
Mas chamo a sua atenção
Para um crime hediondo,
Que devia provocar
Revolta e causar estrondo:
O extermínio dos jegues
Um fato que não escondo.
E, nesses versos, alerto,
A família nordestina,
Que se cala ante um crime
Praticado na surdina:
O extermínio dos jegues,
É real, em cada esquina.
Um sinônimo de trabalho,
Força, suor, humildade,
E presente em nossa história,
Na remota antiguidade,
É trabalhador disposto,
Desde a sua tenra idade.
Vive, em média, quinze anos,
Com incrível mansidão,
A sua cara tristonha
Esconde a disposição,
A força descomunal
E seu grande coração.
Em outros cantos do mundo,
Vive duas vezes mais,
Porque, aqui, não se trata,
Com respeito, os animais,
Vivendo em grande penúria,
Cheio de dores e ais.
É o relógio dos pobres,
Pois em cada meia hora,
Ele solta o seu relincho
(Não sei se rir ou se chora),
Imitar este seu canto,
A criançada adora.
Embora sem a beleza
Do seu parente, o cavalo,
Sem sua velocidade
Incomparável, no embalo,
Ele o supera em força
E não reclama de calo.
Nas terras da antiga Núbia,
Entre Egito e o Sudão,
Os habitantes locais,
Com muita dedicação,
Domesticaram o jumento,
Como quem doma um leão.
No Antigo Testamento,
Nos tempos do povo hebreu,
Relatos mostram o jumento
Com Abraão, o caldeu
E com o povo da terra,
Chamado de cananeu.
O famoso herói, Sansão,
Teve seu grande momento,
Quando abateu mil homens
Com o queixo de um jumento,
Até morto ele ajudou,
A Sansão, em seu intento.
Quem não se lembra da mula
Do profeta Balaão,
Que, vendo o Anjo de Deus,
Ficou parada no chão,
Falando, deu, no profeta,
Uma tremenda lição?
Dizem que, na Bíblia toda,
É deveras mencionado,
São cento e trinta menções,
O tanto que é citado,
Nos livros da antiguidade,
É sempre muito lembrado.
Até mesmo no Egito
(Quatro mil antes de Cristo),
Com muito peso em seu lombo,
O jumento era visto;
Por sua enorme ajuda,
Por todos, era bem quisto.
Os gregos puseram o asno
Em sua mitologia,
Ligando-o a Dionísio,
Da bebida e da orgia;
Só não existe jumento
Em terra gelada e fria.
Até o Mestre Jesus,
Montado num jumentinho,
Foi aclamado “O Rei”,
No dorso desse bichinho,
Mostrou nutrir, pelo mesmo,
Muito respeito e carinho.
Diz a lenda, que a marca
No pescoço do jumento,
Vem das pernas de Jesus,
No conhecido momento,
Da fuga para o Egito,
Viajando no relento.
Ele percorreu o mundo
E chegou a Portugal,
Vindo, depois, ao Brasil,
Descoberto por Cabral,
Adaptou-se ao Nordeste,
Onde, agora, se dá mal.
Portanto, esteve presente,
Desde a colonização,
Quando os desbravadores
Ocuparam o nosso chão,
E os bravos Bandeirantes
Invadiram o sertão.
Pra não haver confusão,
E evitar desavença,
Eu quero deixar bem claro
Que existe diferença
Entre o jumento e o burro,
Pra tanto, peço licença.
O burro é o macho da mula,
São frutos do cruzamento
Do belo e veloz cavalo
Com o forte e baixo jumento,
Não gera filhos, é híbrido,
Desde o seu nascimento.
O jumento ou jerico,
Chama-se asno também,
Foi com ele que Jesus
Entrou em Jerusalém,
É uma pena que, hoje,
Ele não valha um vintém.
A mula nasce com a força
Do jumento e com a altura
E a cara da mãe, égua,
Por causa dessa mistura;
Às vezes, é preferida,
Quando a parada é dura.
O macho é chamado burro,
Enquanto a fêmea é a mula,
Sei que estes pormenores
Deixa muita gente fula,
Mas se não se esclarece
A compreensão é nula.
Há quem chame, simplesmente,
O casal de mulo e mula,
E de burro todos eles,
Sem frescura e sem firula;
Em Inglês, jumento é ‘ass’,
Também palavra bem chula.
No Nordeste, o nome jegue,
Tornou-se o favorito,
Vindo do Inglês jackass,
O termo foi corrompido,
Cerca de um metro de altura,
É, por todos, conhecido.
Com a extinção dos jegues,
Extingue-se, por tabela,
A mula, que é forte e útil,
Embora não muito bela,
O fim de um é, do outro,
Isso sem choro e nem vela.
A lista dos prejuízos
É grande, como se segue,
Pois ninguém mais vai cantar:
E ‘de quem é este jegue?’,
‘Outro rabo pro jumento’,
Será que você consegue?
O Cordel vai usar luto,
O jegue sempre foi tema,
Com a sua extinção,
Está criado o problema;
Bonecos de Vitalino
Terão o mesmo dilema.
Segundo dizem, a vilã
Foi a tal modernidade,
Que barateou transportes,
Invadiu campo e cidade
Do nordeste brasileiro,
Mudando a realidade.
Sem nenhuma utilidade
Ele foi abandonado,
Largado pelas estradas,
Às vezes, atropelado,
Vitimado pela fome,
E, pelo dono, largado.
Em total esquecimento,
O jegue já não valia,
Para muitos, nem sequer
A comida que comia,
Começava, para eles,
A mais horrenda agonia.
Chegou a valer uns cem
E até duzentos mil,
No tempo em que foi útil,
No interior do Brasil;
Hoje, vale dois reais,
O bom animal servil.
Entre os males que lhes fazem,
Alguns parecem inocentes,
Como por cigarro aceso,
Nas suas orelhas quentes,
Para vencer, na corrida,
Todos os seus oponentes.
Houve trabalho excessivo,
Açoites e crueldade,
Abandono aos feridos,
Avançados em idade,
Tudo isso em desrespeito
À lei e à autoridade.
Do ano mil e novecentos
E sessenta e seis até
O ano de oitenta e oito
(Sente, se estiver de pé),
Mais de um milhão e meio,
Transformaram em filé.
Preparados e enlatados,
Na Europa e no Japão,
Com total conhecimento
De nossa população,
Entrou até no comércio
De comida para cão.
Sem contar o grande número
Dos que foram abatidos,
Até enterrados vivos,
Por ficarem só feridos,
E os que, para zoológicos,
Foram, pra serem comidos.
Do ano sessenta e sete
Ao ano oitenta e um,
Setenta e cinco por cento
(Porcentagem incomum),
Dos jegues, estavam extintos,
E não causou zum zum zum.
As estatísticas não mentem,
Nem alimentam ilusões:
No ano sessenta e quatro:
São dezessete milhões;
E hoje, menos de um,
Habitam nossos torrões.
Acho muito interessante
Que a família nordestina,
Chega a se mobilizar,
E com o mundo se afina,
Contra a extinção do Panda,
Existente, lá, na China.
Não mata mais as baleias
Com o criminoso arpão,
Mesmo sabendo que era
O legítimo ganha pão
De parte considerável
De sua população.
Retirou de seu cardápio,
A ribaçã ou rolinha,
Cumprindo a lei que protege
A vida da coitadinha,
Para nós, bem mais gostosa
Que guisado de galinha.
Fica de cabelo em pé,
Com nojo e escandalizada,
Quando sabe que cachorro
É servido em panelada,
E o coelho é comida
Saborosa e requintada.
Não sou contra essa atitude,
Mas considero incompleta,
Pois proteger o jumento
Devia ser nossa meta,
Ignorar, simplesmente,
Não tira ninguém da reta.
É preciso que a lei
Seja, de fato, aplicada;
E que haja punição
Ou lei não vale nada?
Feio é assistir a raça
Ser, aos poucos, exterminada.
Precisamos de atitudes,
Que levem à imitação,
Por exemplo: Adote um burro,
Ele está em extinção!
Eis uma bela campanha,
Visando a preservação.
É preciso que o amor
De São Francisco de Assis,
Encha o coração e mente
Do Nordeste do País,
Pois a extinção do jegue
Está mesmo por um triz.
Até o ogro, Shrek,
Do desenho animado,
Protegeu o amigo, Burro,
Falante e atrapalhado,
Não deixou que o maltratassem,
Quando foi ameaçado.
Guardo, em minha memória,
Alguns fatos curiosos:
A raiva que eu sentia,
Quando crueis criminosos,
Espancavam os jumentos
Já cansados ou idosos.
Lembro a manada andando
Numa fila indiana,
Levando água ou areia
Com disposição e gana,
Sem ter direito a repouso
De um curral ou choupana.
Lembro temer os seus dentes,
Afiados como foice,
E jamais passar por atrás,
Por causo do forte coice,
Da manada amontoada,
Lá na rua do alfoice.
Pois na feira de Campina,
Tinha um estacionamento,
Onde uma multidão
Deixava, ali, seu jumento,
Hoje, imagem do passado,
Viva em meu pensamento.
Lembro até da criançada,
Sob o sol e o calor,
Fazendo grande algazarra,
Digo isso com rubor,
Vendo um casal de jumentos
Às claras, fazendo amor.
Lembro quando, atropelado
E estirado no chão,
E tentando se evadir,
O autor da vil ação,
Uma fileira de jegues
Foi a minha salvação.
Ficaram em frente ao carro,
Colocados por seu dono,
Que não permitiu que eu
Ficasse no abandono,
Graças a eles, tal fato,
Nesses versos, menciono.
Lembro o dia em que um
Carregou-me, em disparada,
Quando, nele, eu quis ser
Uma Polícia Montada;
Quem nunca andou de jumento,
Jogue a primeira pedrada.
Da Vinci, o grande artista,
Disse uma grande verdade,
Que um crime contra um bicho,
É contra a humanidade;
Acho que, contra um jegue,
É bem maior a maldade.
Pois, para muitos, é ele
O grande amigo do homem,
Sem o qual, muitos dos feitos
Da humanidade, somem,
Entretanto, os ingratos,
Simplesmente, matam e comem.
Uma lenda antiga diz
Que um jumento chorou,
Quando Francisco de Assis,
Com seu asno, conversou,
Agradecendo o trabalho
Que o mesmo realizou.
Hoje em dia, os onofóbicos,
Formam um enorme time,
E quem assiste, em silêncio,
Para mim, não se redime,
Deste cruel asnocídio
Um indesculpável crime.
Antes de por um final
Neste humilde libelo,
Rendo a minha homenagem
Ao gesto raro e tão belo
Do Padre Antônio Vieira,
E seu trabalho singelo.
Homônimo de grande vulto,
Dedicou-se a defender
O desamparado jegue,
Então, não deixe de ler:
O ‘Jumento, Nosso Irmão’,
Vale a pena conhecer.
Amplio a minha homenagem
A todos que, nesta luta,
Acrescentam a sua força,
Nesta importante labuta,
Só vence esta batalha,
Atitude resoluta.
Aos que promovem corridas
Ou qualquer outro evento,
Que desperte a consciência
Em defesa do jumento,
Nosso muito obrigado,
Neste especial momento.
Alguém já disse, eu concordo,
Uma verdade inconteste,
Para quem acha que o jegue
Não passa de uma peste:
Ele é mesmo um Patrimônio
Da Cultura do Nordeste.
Declaração Universal dos Direitos do Animal
UNESCO - 1978
Art. 1º - Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência.
Art. 2º - O homem, como a espécie animal, não pode exterminar os outros animais ou explorá-los violando este direito; tem obrigação de colocar os seus conhecimentos a serviço dos animais.
Art. 3º - Todo animal tem direito à atenção, aos cuidados e à proteção do homem. Se a morte de um animal for necessária, deve ser instantânea, indolor e não geradora de angústia.
Art. 4º - Todo animal pertencente a uma espécie selvagem tem direito a viver livre em seu próprio ambiente natural, terrestre, aéreo ou aquático, e tem direito a reproduzir-se; Toda privação de liberdade, mesmo se tiver fins educativos, é contrária a este direito.
Art. 5º - Todo animal pertencente a uma espécie ambientada tradicionalmente na vizinhança do homem tem direito a viver e crescer no ritmo e nas condições de vida e de liberdade que forem próprias de sua espécie; Toda modificação deste ritmo ou destas condições, que forem impostas pelo homem com fins mercantis, é contrária a este direito.
Art. 6º - Todo animal escolhido pelo homem como companheiro tem direito a uma duração de vida correspondente à sua longevidade natural; Abandonar um animal é ação cruel e degradante.
Art. 7º - Todo animal utilizado em trabalho tem direito à limitação razoável da duração e intensidade desse trabalho, alimentação reparadora e repouso.
Art. 8º - A experimentação animal que envolver sofrimento físico ou psicológico é incompatível com os direitos do animal, quer se trate de experimentação médica, científica, comercial ou de qualquer outra modalidade; As técnicas de substituição devem ser utilizadas e desenvolvidas.
Art. 9º - Se um animal for criado para alimentação, deve ser nutrido, abrigado, transportado e abatido sem que sofra ansiedade ou dor.
Art. 10º - Nenhum animal deve ser explorado para divertimento do homem; As exibições de animais e os espetáculos que os utilizam são incompatíveis com a dignidade do animal.
Art. 11º - Todo ato que implique a morte desnecessária de um animal constitui biocídio, isto é, crime contra a vida.
Art. 12º - Todo ato que implique a morte de um grande número de animais selvagens, constitui genocídio, isto é, crime contra a espécie; A poluição e a destruição do ambiente natural conduzem ao genocídio.
Art. 13º - O animal morto deve ser tratado com respeito; As cenas de violência contra os animais devem ser proibidas no cinema e na televisão, salvo se tiverem por finalidade evidenciar ofensa aos direitos do animal.
Art. 14º - Os organismos de proteção e de salvaguarda dos animais devem ter representação em nível governamental;
Os direitos do animal devem ser defendidos por lei como os direitos humanos.
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