sábado, 28 de maio de 2011

Em Casa que Mulher Manda

Por Carlos Alberto Fernandes da Silva

Em casa que mulher manda,
Até galo canta fino,
Já dizia um velho adágio
Do folclore nordestino,
Entretanto, ela mandar,
Não é surpresa, é destino.

Pois, quando Deus pôs, no mundo,
O primeiro homem, Adão,
Este vivia sozinho,
Descuidado e peladão,
Bem barbudo e desleixado,
Um verdadeiro machão.

Sua casa era uma beleza,
Sem móveis, desarrumada
(Não havia uma mulher
Trabalhando de empregada),
Depois do expediente,
Ele não fazia nada.

Embora não existisse
O jornal e o joguinho,
Nem sequer televisão
Para ele ver, sozinho,
Havia a necessidade
De tirar um cochilinho.

Dormia a qualquer hora,
Sem ouvir reclamação,
Vivia com a macacada,
Com as onças e o leão,
Era o rei do paraíso,
Não havia oposição.

Nesse tempo ele não tinha
Uma hora de chegar
Do serviço, no Jardim
Que vivia a cuidar,
Na companhia dos bichos,
Nem via a hora passar.

Às vezes, chegava cedo,
Em outra, chegava tarde,
Isso não era problema
E ninguém fazia alarde,
Era um cabra corajoso,
Não nasceu pra ser covarde.

Não havia hora de almoço,
De café ou de jantar,
Para dormir, só bastava
O sol, no céu, se apagar
E quando o galo cantava,
Era hora de acordar.

Sem pressa e nem correria,
Vida calma e sossegada,
Sem problemas no futuro,
Nem preocupação com nada,
Livre como um passarinho,
Sua vida era uma barbada.

Ele comia na sala,
No quarto, sala e galpão,
E deixava a louça suja
Espalhada pelo chão,
Não forrava a sua cama,
Nem limpava o fogão.

Levava sempre pra casa
Os animais do Jardim,
Sua mesa estava cheia
De gato e de guaxinim,
Leões entravam e saiam,
A festa não tinha fim.

Entrava com os pés sujos,
De sapato, ia dormir,
E não escovava os dentes
Nem na hora de sair,
Mostrava dente amarelo,
Quando estava a sorrir.

Espalhava os apetrechos
No que ele chamava lar,
O lixo em frente de casa
Continuava a jogar,
E o melhor: não havia
Ninguém para reclamar.

Apesar desse sossego
E viver num mar de rosa,
Faltava uma companheira
Dedicada e amorosa,
Para dividir a vida
E tirar aquela prosa.

Mas o homem adormeceu
Sonhando com a companheira,
Que Deus, de sua costela,
Fez real e verdadeira,
Era tudo o que faltava
Pra acabar com a brincadeira.

E eis que surge a mulher
Um ser belo e delicado,
Meigo e muito carinhoso,
E, além de tudo, educado,
A paz do velho machão
Tava com o prazo contado.

Pois, após sua criação,
A mulher ocupa o espaço,
E o homem, que vivia
Tranquilo e sem embaraço,
Já não manda mais em nada,
Nem sequer no seu pedaço.

Ele passa a usar roupa
E a andar perfumado,
Não pode mais ter chulé
Tem que viver penteado,
Tomar banho todo dia,
Viver sempre barbeado.

Inventou desodorante,
Para passar no sovaco,
E espantar, para longe,
A catinga de macaco,
Para carregar pacotes,
Já não podia ser fraco.

Em casa, tem novas regras,
Nada de bicho por perto,
Tudo na perfeita ordem,
Lugar e momento certo,
A vida de paraíso
Ia virando um deserto.

Arrotar é proibido,
Gases, nem imaginar,
Falar alto agora é feio,
Sapato tem que guardar,
Tem que aprender bons modos
E a se organizar.

Chegar em casa mais cedo
Torna-se obrigação,
Adeus joguinho com os bichos
Ou outra recreação,
Trabalhar o dia inteiro
É a vida de Adão.

E como se não bastasse,
Foi expulso do paraíso
Por causa da companheira,
Que, de surpresa e sem aviso,
Recebeu, e que o deixou
Bem louco, leso e liso.

Ele teve que encontrar
Tempo para ir à feira,
Fazer compras no mercado,
Visitar a costureira,
Passar no cabeleireiro,
Junto com a companheira.

Tinha que ouvir o relato
E as novidades do dia,
Quando chegava cansado,
Nem sentar ele podia,
- Leve o lixo e traga lenha,
Era o que ele ouvia.

- Está faltando comida,
A dispensa está vazia,
Você não ajuda em nada,
Ela sempre repetia,
Disfarçando a cara feia,
Ele sempre atendia.

Tinha que sair com ela,
Pra passear, é verdade,
E foi num passeio desses
Que ela viu uma novidade,
E o fruto proibido
Despertou curiosidade.

Não que a mulher mandasse,
Ela apenas lhe pedia,
E se ele não atendesse,
Era aquela baixaria,
Com lágrimas e chantagem,
Tudo, ela conseguia.

Pois mulher inteligente,
Nunca precisou mandar,
Mesmo o maior machão,
Faz o que ela imaginar,
E ainda fica pensando
Que é o rei do lugar.

Basta o olhar de uma mulher
Para machão falar fino,
Não importa se é gaúcho,
Se é paulista ou nordestino,
Elas sempre dominaram,
Do mais santo ao mais cretino.

Quem manda é mesmo a mulher,
Isso é fato consumado,
Tem o homem consciente
E também o enganado:
Machão, na frente dos outros
E, em casa, pau mandado.

Mas existe e mulher burra
Que tenta mandar no grito,
Essa enfrenta oposição,
Resistência e atrito,
Porque mandar desse jeito
Não é certo e nem bonito.

Por isso, eu não concordo
Com esse antigo ditado,
Ele não diz a verdade,
Está mais que equivocado,
Desde que a mulher surgiu,
É ela quem tem mandado.

Se galo cantasse fino
Em casa que mulher manda,
Dava pra formar coral,
Acompanhado por banda,
De sopranos de opereta,
Cantando em cada varanda.

É claro que ainda existem
Meia dúzia de machões,
Bancando os reis do pedaço,
Invencíveis e durões,
Sujos e desarrumados,
Estão fora dos padrões.

São criaturas que vivem
No período das cavernas,
Não viram raiar o dia,
Presos a trevas eternas,
Que resistem ao avanço
Da luz das eras modernas.

Dizem que - manda quem pode,
Quem tem juízo, obedece,
Com as pessoas normais
É o que sempre acontece,
Eu tento ser diferente,
Essa é a minha prece.

Como bom paraibano,
E convicto machista,
Dessa turminha mandada,
Não faço parte da lista,
Não ligo quando me chamam
De atrasado e egoísta.

Em casa, sou em quem manda,
Acredite se quiser,
Não importa o que aconteça,
E haja mesmo o que houver,
Mas a última palavra
Quem dá é minha mulher.

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