Por Carlos Alberto Fernandes da Silva
Ser cordelista é escrever
Usando a rima e o compasso,
Em linguagem popular,
Porém sem errar o passo,
Uma narrativa simples,
Fluente e sem embaraço.
É pensar em sete sílabas
Em seis, sete ou dez linhas,
É arredondar a bola,
Tirar, do peixe, as espinhas,
Tornar, o difícil, fácil,
Cortar as ervas daninhas.
É dar nó em pingo d’água,
Para encontrar a rima,
As frases cadenciadas
Com a métrica em cima,
A suave inspiração,
Quando não existe o clima.
É fazer surgir, do nada,
Como um toque de magia,
Palavras que ganham forma
De cordel e de poesia
E que cheguem aos ouvidos
Como doce melodia.
A ter a satisfação,
Embora insatisfeito,
Por achar que o trabalho
Ainda não está direito,
De fazer o que se gosta,
Com muito orgulho no peito.
É mostrar felicidade
Na tristeza e na desgraça,
Respeitando, sem respeito,
A Feiúra e a graça;
É enrolar, com palavras,
Porém sem fazer trapaça.
É usar poucas palavras
Para expressar uma porção
De idéias e conceitos,
Com sentimento e razão,
Com a caneta e o papel,
Provocar uma explosão.
É esconder a tristeza,
Demonstrar só alegria,
Para não deixar que o verso,
Se torne uma letra fria,
É fazer, do dia, noite,
E, da escura noite, dia.
É escrever leve e solto,
Como se não fosse nada,
Carregar pedra e tijolo
Com a alma descansada,
Contemplando, em quase tudo,
Motivos pra caminhada.
É, não sendo entendido,
Ter que, de tudo entender,
Aceitar o desafio
De, sobre tudo, escrever,
Viver a eterna busca
Pelo sagrado saber.
É ler um novo cordel
Como se fosse o primeiro,
Muito embora tenha lido
Os cordéis do mundo inteiro,
É jamais perder o amor
Nem o prazer verdadeiro.
É receber pelo muito
Quase nada, em recompensa,
E transformar os minutos
Numa eternidade imensa;
Sem ter tempo pra pensar,
Dizer tudo que se pensa.
É achar que o maior prêmio
É o reconhecimento,
Que, por menor que ele seja,
Torna-se um grande alento,
Por temer que a obra seja
Levada por qualquer vento.
É dar cara nova a tudo,
De preferência, agradável;
Ao dizer palavras duras,
Falar de um modo afável;
Ao narrar o bem e o mal,
Transformar tudo em louvável.
É atravessar o tempo
E os limites do espaço,
Indo do céu ao inferno,
Do sagrado ao cangaço,
Como que, por um portal,
Sem cair em nenhum laço.
É jamais, em tempo algum,
Esquecer nosso Nordeste,
De Leandro e de Silvino
E outros cabras da peste,
Manoel Filho e Zé Pacheco:
Esse é o nosso grande teste.
É carregar grande fardo,
Por ser mais um dos herdeiros
Dos mestres e menestréis
Cordelistas brasileiros,
Tendo, no sangue, a poesia
De poetas verdadeiros.
É saber citar de cor
Vários textos de Cordel,
Conhecer a sua história,
E cada um menestrel
Que falou uma das línguas
Desta Torre de Babel.
É conhecer a história
E os vultos do sertão,
Conselheiro, Padre Cícero,
Os cabras de Lampião,
Junto com lendas e mitos
Desta rica região.
É abranger o Brasil
Superando o bairrismo,
Para que ninguém aponte
Falta de patriotismo,
Declarando que o Cordel
É mero regionalismo.
É enfrentar resistência,
O tabu e o preconceito
Dos que trazem a ignorância
Arraigada no seu peito,
Que, além do seu umbigo,
Não vêem nada direito.
É gostar de companhia
E amar a solidão,
Momento que se consegue
A paz e a inspiração
Para unir a cabeça
Direto ao coração.
Parece que o cordelista
Não tem nada pra fazer,
Pois gasta o seu tempo livre
Na arte de escrever
Os versos que, muitas vezes,
Ninguém no mundo vai ler.
Porque ser um cordelista
É ter um enorme vício
Que, pela graça de Deus,
Não leva a um precipício:
É viver pensando, em rimas,
Num cenário fictício.
É ver além da imagem,
Entender além do fato,
Recusar definições,
Não aceitar o exato
E fazer, do ‘faz de conta’,
Inseparável artefato.
É provocar emoção,
Surpresa, risos e encanto,
Às vezes, indignação,
Revolta ou mesmo o pranto,
E, sobre o negro mistério,
Retirar ou por o manto.
É seduzir com palavras,
Porém de modo sutil,
Conquistar mais que atenção,
Numa espécie de ardil,
Atingir, em cheio , o alvo,
Como um tiro de fuzil.
É não ter feito a escolha,
Mas ter sido escolhido,
Para registrar em rimas
O sorriso e o gemido,
E, contando mil histórias,
Ter o seu papel cumprido.
E dizer que tudo é fácil,
Um exercício, um dom,
Demonstrando humildade,
Que, por um lado, é bom,
Porém contrário à verdade,
A ser dita em alto som.
É estar, entre os poetas,
No finalzinho da lista,
Mesmo assim ver seu trabalho
Como uma grande conquista:
Protegei-me, meu bom Deus,
Eu também sou cordelista.
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